Vale tudo para compor uma boa personagem… Só não vale… (vocês sabem)

O ano era 1996. Eu estava morando no Mato Grosso do Sul. Numa pequena cidade que, de tão pequena, ainda nem tinha panela de pressão. Não existia essa tecnologia por lá. Pequena mesmo, porém, pacata, como todas as cidadezinhas que não tem panela de pressão. Isso me dava depressão. (Só para não perder o trocadilho indigesto).

Fiquei uns dois anos por lá. Não agüentei o tédio, pedi demissão e voltei a Paranavaí – Cidade Poesia. (Que lugar lindo!).

Logo que voltei, o Téia ficou sabendo e me chamou para participar da última apresentação de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Queria que eu cobrisse a falta de um dos atores que tinha ido embora da cidade.

Sim, sou integrante do TEP – Teatro Estudantil de Paranavaí. Atuo, dirijo e etc. Pois bem. Fiquei todo empolgado. Tinha somente uma semana para decorar o texto do Coronel Antonio Noronha de Brito Moraes. Quase dois anos de molho, sem interpretar, aquilo me deixou muito animado mesmo.

Decorei rápido o texto e, na composição da personagem, que já tinha certa idade, fui à frente do espelho e provei umas roupas, chapéus, botas e bengala. Tentava também encontrar o melhor timbre de voz.

Faltava-me algo. Eu tinha 26 anos e precisava envelhecer. Grupo de teatro pobre e amador, sabem como é. Não tínhamos verba para comprar o famoso pancake para a maquiagem. Precisava deixar meus cabelos e meu rosto brancos. Olhei para o lado e vi uma latinha de talco. Não tive dúvidas. Joguei talco em todo meu cabelo. No meu rosto. Pescoço. Percebi que estava ficando boa a maquiagem. Coloquei um pouco na orelha e dentro dos meus ouvidos. Eu tinha que ficar perfeito. Era o meu retorno a Paranavaí. Tinha que ser marcante.

Já maquiado e na frente do espelho comecei a falar meu texto. Impostava a voz. Os vizinhos quase enlouqueceram, mas, minha mãe, os acalmava dizendo que tinha um filho ator, que era assim mesmo e ela já estava acostumada.

– É da televisão, dona Maria?

– Não! Quem dera. É de teatro mesmo…

Uma vez meu pai foi ao teatro me ver atuando. A peça era Arena Canta Zumbi. Um drama de Guarnieri, Boal e Edu Lobo, sobre a saga de Zumbi dos Palmares. Uma peça linda, toda musicada! Eu jogava capoeira, fazia papel de escravo, feitor, vendedor e até a personagem de Dom Ayres de Souza Bezerra de Castro. Eu dava o texto com muita euforia, afinal, meu pai estava na plateia. Eu queria impressionar. Notei que ele saiu umas duas vezes e na terceira não voltou mais. Já em casa perguntei a ele porque saia tanto e porque não voltou.

– Eu estava saindo para fumar. Não queria que eu fumasse lá dentro, né?

– O que o senhor achou da peça?

– Interessante.

– …

Voltemos ao meu caso.

E eu lá, na frente do espelho, estalando a língua e fazendo exercícios de expressão vocal e dicção.

PA PÉ PI PÓ PU… A ARANHA ARRANHA O JARRO… NÃO HÁ LUAR… DOIS PRATOS DE TRIGO PARA DOIS TIGRES (esse último eu não consigo falar até hoje).

Foi então que meu rosto começou a queimar. Sim, queimava… Sentia meu rosto pegando fogo. Começou a arder tudo… Meus olhos lacrimejavam… Isso não está certo! Será que eu encarnei tanto a personagem do velho que estou sentindo na pele? Consegui pensar isso antes de pegar a latinha e olhar sua embalagem.

(Neste momento que tiver Rivotril em casa, pode ir lá buscar e tomar um, antes de continuar a leitura).

Peguei a latinha, olhei a embalagem e vi o desenho de uma caveira com dois ossos em X cruzando-a. Isso eu não tinha visto ainda. Estava tão empolgado com a criação da personagem. Era veneno para rato! Eu passei veneno para rato na minha cara e cabelo! Acreditam?

O famigerado desenho que eu não vi antes

Comecei a jogar água em tudo. Aquilo virou um sebo. Arrependi-me de misturar água com aquele pó. Mas era tarde. Comecei a gritar por socorro. Ninguém veio me atender. Pensaram que fazia parte da interpretação. Entrei no chuveiro, com os olhos bem fechados, com medo de ficar cego. Lavei tudo, até sair o último pó de veneno do meu corpo.

Eu não me lembro de um banho tão demorado. Fiquei zero kilômetro. Sem sequelas, como vocês podem ver. Eu sobrevivi. O médico disse que eu poderia ter ficado com alguma deficiência. Acho que não fiquei com nenhuma.

Eu acho…

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Sobre Amauri Martineli

Acho que vou escrever sobre mim depois...
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7 respostas para Vale tudo para compor uma boa personagem… Só não vale… (vocês sabem)

  1. abdallah disse:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    (bastante Ks para dizer que ri muito)
    Mas eu tenho dúvidas se nao ficou nenhuma sequelazinha…….rs

  2. joao henrique disse:

    será mizifí? rsrs
    rapaz esse veneno deu foi uma saculejada nas lombriga do seu cebro!.
    ósculos e amplexos!

  3. Rosi disse:

    É inacreditável!!! E o Doutor Altino dizia que o que te deixou assim fora a meningite. Acho que ele não sabia dessa, né!!!

  4. Nossa! Quantos amigos eu tenho.

  5. ademir disse:

    Até seu pai ja foi ver uma peça sua, por isso que eu acredito que ele estaja em um bom lugar.

  6. Ansuz disse:

    Hahahahahahahahahaha E eu achava que era desastrada porque uma vez passei shampoo de cachorro na minha esponja pensando que era meu sabonete líquido .-.

  7. Antonio Neto disse:

    Hilário!!! Ainda bem que não ficou nenhuma sequela!

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