Lagoa dos Búfalos

1-

Tinha o olhar matreiro. Matreiro e, ao mesmo tempo, desregrado. Quando chegou a casa do Seo Joaquim, que estava em frente, na rua, foi logo perguntando por Maria.

– Não está!

– Como assim, não está!?

– Não está! – retrucou o velho, entrou e bateu a porta.

– Velho miserável! – murmurou JP. Saiu pisando firme e batendo forte o portão, fazendo com que o velho gritasse de dentro do casebre.

Bruto farabuto!!! Birbante!!! – e finalizou com um sonoro Sacripante!!!

Essa mania que os descendentes de italianos tinham de misturar o português com o idioma do país de seus ancestrais, deixava JP indignado.

-2-

Na periferia da pequena cidade, próximo a Lagoa dos Búfalos, tinha uma pequena cachoeira onde se encontravam os fotógrafos amadores, para registrar o único cartão postal da cidade e, principalmente, os enamorados, amantes – ou ficantes mesmo.

E lá estava Maria, toda faceira (não estava fotografando nada, diga-se de passagem). Com a vinda de um motociclista da capital, com uma super moto, com três pneus (três pneus!!! Incrível!) os portadores de máquinas power shot e celulares com câmeras, correram para registrar o acontecimento inolvidável.

Eis o retrato do JP, digo, de um búfalo...

A cachoeira estava livre e, embora ela quisesse muito ver a tal moto – nossa… três pneus – delineava mentalmente – pensava não ter outra chance de se encontrar com Richard – moreno, alto, bonito e sensual – como na música – e como convém também – dizia em voz baixa, segredando a si, depois ria bem alto.

Pensou em JP e em sua idéia fixa se montar uma dupla com seu irmão Marcelo.

– Vão é passar fome. Vão trabalhar, vagabundos! – Gritava, exorbitante o italiano. Afinal não queria ver sua filha envolvida com qualquer um.

– Abstrai e relaxa, pai! – Maria dizia e o velho soltava mais um palavrão em italiano e entrava, sempre batendo a porta.

Abstrai e relaxa – repetia baixinho, saboreando as palavras. Ouviu isso de uma amiga, Maria das Graças, que gostava de ser chamada de Greice, que uma vez foi pra capital com a mãe e leu escrito… – num tal de mecene? – MSN! É de falar com as outras pessoas no computador… – explicava Greice, com um exibicionismo gritante, acreditando ser a última rosquinha do pacote e, às vezes, se achando a bala que matou Kennedy.

-3-

Quando Richard chegou, antes de começar a esfregação, foi dizendo, romântico…

– Se eu te disser que sou um papelzinho, você me dá uns amassos? – Mesmo não sendo tão original, Maria suspirou e perguntou:

– Se eu te disser que sou uma goiaba, você me dá umas mordidas?

Sem esperar a resposta começaram então os, digamos, procedimentos indignos de uma sessão da tarde na Globo, mas que cairiam muito bem no Corujão.

E beija daqui, morde acolá, tapa na mão, arrepios com beijos na nuca e promessas de entregar até a senha do banco…

-4-

A tal moto

JP está chegando. A Lagoa das Bufas, como ele chamava, era seu local predileto. Dele e dos 1.358 habitantes da cidade. Era a terceira pessoa naquele complexo demográfico que não estava vendo a moto que tinha três pneus.

Ao ouvir o barulho da queda d´água, resolveu passar por lá e ficar sozinho por um tempo.

– Quem sabe mais tarde Maria não passe por aqui e me conte detalhes sobre a moto tri-pneus. – pensou, iludido.

-5-

Quando chegou ao local e viu a cena, antes de concatenar as idéias e perceber totalmente o que se passava, veio-lhe a mente uma lembrança. Tinha visto uma vez umas ilustrações em um livro de um italiano – ah! como o Joca o fazia odiá-los – onde haviam umas figuras esquisitas, algo que martelava em sua cabeça, uma tal de Comédia Dividida ou algo assim… Enfim, era uma cena… uma cena… ele não sabia o nome.

Ao recompor-se saiu catando tudo o que encontrava pelo chão e atirando no casal que, atônito, corria desembestado mata adentro. Atirava pedras, paus e até tirou a botina e jogou… e xingava, alto.

Brutos farabutos! Birbantes!

E finalizava com um sonoro Sacripante!!!

(Amauri Martineli)

Sobre Amauri Martineli

Acho que vou escrever sobre mim depois...
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Uma resposta para Lagoa dos Búfalos

  1. Neuza Ferreira disse:

    eita! que as histórias do Agnaldo são boas por demais!! rsrsrs

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