Meu discurso de formatura

Me formei em agosto de 1993 em Administração de Empresas. Tinha 23 anos de idade e fui eleito Orador Geral dos Formandos. Para a eleição, houve uma reunião com os formandos e com direito a dois turnos.

A colação de grau foi no Ginásio Lacerdinha, em Paranavaí. Estava lotado. O mestre de cerimônias era o Roberto Khalil, o paraninfo Walmor Trentini e quem operava o som era o Preto, do Gralha Azul. Chega de nomes né gente, faz 18 anos e eu até que estou bem de memória…

Em agosto de 93 eu era assim. Ao meu lado Gislaine Geremias. Ao fundo, Airton Zotesso, Elton Felipe e sabe-se lá quem mais...

Teve uma polêmica danada na época porque uns diziam que eu troquei os discursos. Mas não é verdade. Li o mesmo discurso que mostrei para a vice diretora, à época, Luzia Bana.

Segue o discurso na íntegra.

***

ILMO. SR. IVAN FERREIRA DA CRUZ – DD. DIRETOR DA FACULDADE ESTADUAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIAS E LETRAS DE PARANAVAÍ

ILMO. SR. WALMOR TRENTINI – PARANINFO GERAL DOS FORMANDOS DO 1º SEMESTRE DE 1993

EXMO. SR. JOSÉ AUGUSTO FELIPPE – PREFEITO MUNICIPAL DE PARANAVAÍ, através do qual, saudamos as autoridades civis, militares e eclesiásticas presentes neste ato.

Senhores, senhoras, amigos.

“…Não tenho a palavra na mão,

tenho cruzes, queixas e dúvidas que

não sei perguntar.

Tenho sim as proezas dos que sonham

acordados e remoem seu presente.

Não tenho a palavra na mão,

na mão apenas sopeso o futuro,

esse verbo que não aprendi conjugar.”

Helder Louis Rodrigues

Quatro anos de faculdade, o ir e vir nas viagens, os ônibus lotados, a VIPA lotada e cara, as aulas que não tivemos, os gastos do curso. Quinze anos de escola, do primário até agora. Muita gente em volta, ajudando, ensinando, pai, mãe, professores, amigos. Muitas horas em cima de livros, muita leitura, muito trabalho, muita reunião, questionamentos, discussões. Falta de material para pesquisas, falta de livros, livros caros.

Quatro anos de faculdade. Uns menos que isso, outros mais. E que valem agora? Há poucos dias fui demitido do mísero emprego onde trabalhava. Contenção de despesas. Mas sei que não sou caso a parte. 20% da força de trabalho local está desempregada. 40% dos que estão colocados em alguma atividade são subempregados, assim como o bóia-fria. O que se ganha não dá para manter-se dignamente. Dá apenas, e mal, para continuar sobrevivendo. Serve apenas para a comida, a subalimentação, as deficiências alimentares a engrossar o contingente dos trinta e dois milhões de famintos no Brasil, dependentes de eternas campanhas assistencialistas.

Quatro anos de faculdade e esta instituição não nos prepara para transformar a dura realidade que aflige a nação. A fome do povo, o desemprego do operário, o homem sem terra, o desamparo da criança. A concentração da renda e a divisão da pobreza. Nestes anos todos de FAFIPA, alunos, professores e funcionários consumimos milhões de cruzeiros reais de dinheiro público, ou seja, do povo, e muito pouco retribuímos à população trabalhadora que nos mantém na faculdade. Pelo contrário, a estrutura do ensino no Brasil, objetiva manter o atual sistema econômico e político no interesse de minoria da população. Nestes anos todos de faculdade, fomos educados na conduta individualista e na alienação, impostos pela ideologia da classe dominante.

A acusação

A partir dos anos sessenta, o ensino superior brasileiro deixou de ser o espaço de produção e desenvolvimento, do debate das idéias, da consolidação da cultura nacional. A universidade transformou-se numa jaula onde nos domam para sermos mão-de-obra barata no mercado capitalista.

A faculdade tem servido como mais uma instituição oficial de dominação, onde roubam-nos o sonho e nos impõem a realidade do egoísmo; roubam-nos a impetuosidade e nos impõem a submissão; roubam-nos a consciência coletiva de classe e nos impõem o individualismo do livre mercado; roubam-nos a capacidade de criar e transformar e nos impõem a ideologia da massificação e da repetição; roubam-nos o conhecimento e a cultura e nos impõem a fantasia e o misticismo; roubam-nos a liberdade e nos impõem os vícios da torta moral oficial; roubam-nos o acesso à liberdade da arte e da cultura e nos impõem a breguice da indústria cultural; roubam-nos a felicidade e nos impõem fútil diversão; roubam-nos os meios e a liberdade de expressão e nos impõem a versão oficial dos mercenários da pena e do vídeo; roubam-nos o próprio sentido da vida e nos impõem uma vida sem sentido.

Quatro anos de faculdade e um diploma nas mãos. Olho para trás e já não me lembro de nada. Um tempo a me mostrar que minha vida passou pela faculdade. O diploma a me mostrar que estou aprovado para a luta. Meus professores, meus mestres, à minha frente, me sugerem neste momento, a satisfação, (quem sabe?), do dever cumprido, seu dever sacrossanto da transmissão dos conhecimentos adquiridos, da formação do educando que estava a seu cargo. Somente o diploma é prova suficiente da missão cumprida?

Quatro anos de faculdade e nossos pais estão na platéia, na esperança de que teremos um futuro melhor do que o presente deles. Esperança de que o que procuraram nos dar ao longo do tempo foi necessário para que subíssemos, crescêssemos, alcançássemos aquilo que eles não tiveram oportunidade, não tiveram chance, foram impedidos, vítimas de uma sociedade canhestra e miserável.

A defesa

Quatro anos de faculdade, um diploma nas mãos, e medo, muito medo. Medo de não estar preparado para a assunção de qualquer função na nossa sociedade. De não ter conhecimentos suficientes para administrar com sucesso uma empresa, uma seção, um distrito. De não conseguir dar uma aula, fechar um balanço, contabilizar uma partida, resolver um problema, elaborar uma carta, fazer o acompanhamento escolar de um aluno problemático ou de não conseguir fazer um curativo ou uma assepsia corretos.

Contudo, discursos não servem para a conscientização de ninguém. Se assim fosse, a situação brasileira, em que urgem mudanças drásticas, seria bem outra, e, com certeza, melhor.

A mudança depende também de NÓS.

A fuga do real significa a fuga de si mesmo.

Obrigado.

Anúncios

Sobre Amauri Martineli

Acho que vou escrever sobre mim depois...
Esse post foi publicado em Opinião. Bookmark o link permanente.

6 respostas para Meu discurso de formatura

  1. Talise Schneider disse:

    Parabéns, texto sincero…
    Não vou dizer que mudou muita coisa desde então…
    Poderia usar o mesmo texto para minha formatura,
    por enquanto só mudaria o segundo paragráfo (ainda tenho emprego rs).
    Beijocas

  2. Cacilda Martineli disse:

    Me recordo perfeitamente desse dia, pois foi muito comentado na época.
    Uma coisa que não esqueço era o medo de minha mãe de alguém mandar
    matar o Amauri (rsrs), ouvi o discurso pelo rádio no outro dia e as palmas dos
    formandos foram imensas. Parabéns, voce foi muito corajoso e honesto. Bjs

  3. Bem atual…. arrisco até dizer que é tão “real” quanto os cruzeiros da época!!!!!! rrssrs

  4. Rosi Sanga disse:

    Dizer aquilo que se pensa é sempre um ato de coragem, admirável discursso…

  5. Antonio Neto disse:

    Verdadeiramente chocante! Um discurso da sinceridade e da coragem!

  6. Edson Alves da Silva disse:

    Tanto tempo e tão pouca coisa mudou. A escola continua sendo uma instituição de alienação, é uma pena. Mas, não está só, a igreja também continua com seu papel de mentiras. Não acredito que nada mude. Daqui mil anos os alienantes futuros e os alienados complacentes continuarão a pregar e aceitar a mentira, porque ela é mais cômoda. A verdade incomoda, a tal ponto que preferimos não buscá-la a ter que enfrentá-la.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s